Édipo Rei e Antígona

                                  
                                  - ÉDIPO REI -
                                             *
     
     Édipo Rei é uma peça teatral escrita por Sófocles por volta de 427 a.C. A obra é considerada uma das principais peças do gênero trágico grego e, pelo filósofo Aristóteles, a mais perfeita de todas. A tragédia, como todas as outras, utiliza-se de um Coro para ser a voz da cidade perante um rei/soberano, que, no caso das peças de Sófocles, é mais reflexivo, gera questionamentos ao público. Lendo Édipo rei percebe-se que existem três personagens em cada cena apresentada. A peça é a apresentação de uma história já conhecida oralmente na Antiguidade Clássica, baseada no mito de Édipo. Ela gera em seus espectadores/leitores um processo de catarse, uma purificação dos seus sentimentos, lembrando a nós que a nossa vida não é tão ruim, que podemos amenizar nossa dor observando o outro.
     O mito relata a história da cidade de Tebas durante o reinado de Laio até o início do reinado de Édipo. No princípio, o rei Laio era casado com Jocasta e não tinha filhos, porém necessitava da descendência para a continuidade do reino. Para isso, consulta um oráculo que o diz que não poderia ter filhos e que se desobedecesse a ordem dos deuses, o seu primogênito o mataria e ele casaria com a própria mãe. Não acreditando nas palavras do oráculo, concebe um filho em Jocasta. Logo, se arrepende do ato e manda abandonarem a criança em uma montanha com os pés furados, dando origem ao nome Édipo (Edipodos = pés inchados), para que ela morresse. A criança não morre e é entrega a Políbio, rei de Corinto, e acaba sendo criada como seu filho.

     Esse filho cresce e acaba indo ao oráculo que relata o seu destino já premeditado no qual matava o pai com suas próprias mãos e casava com sua mãe. Acreditando que seus pais são os soberanos de Corinto, foge em direção a Tebas. Em uma encruzilhada, Édipo se encontra com viajantes e por motivos não muito justificáveis os mata, dentre eles estava o rei de Tebas, Laio. Sem perceber acaba completando parte de seu destino. Ao chegar na cidade, encontra-se com a Esfinge (criatura metade leão, metade mulher) que aterrorizava os tebanos com enigmas e destruição. Ela propõe a Édipo um enigma que ninguém ainda havia respondido corretamente e ele o decifra com facilidade. Em seu desgosto por não ser vitoriosa, a Esfinge se atira no mar e liberta a cidade. O decifrador do enigma é coroado rei e casa-se com Jocasta, que ficara viúva recentemente. Eles têm dois filhos e duas filhas e vivem tranquilamente até a chegada de uma peste sobre a cidade de Tebas.


     Neste momento, a tragédia de Sófocles começa a ser relatada, quando o rei resolve descobrir o porquê desta desgraça sobre sua cidade. As cenas começam com a súplica do sacerdote ao rei Édipo pelo fim do martírio de Tebas. O rei garante que encontrará a saída para o problema, nisso Creonte (irmão de Jocasta, esposa de Édipo) retorna de Delfos e relata o oráculo de Apolo, o necessário para a libertação de Tebas é limpar a imundície da terra que se remete ao assassinato de Laio. Édipo, que não sabe exatamente de quem se trata, questiona Creonte em relação aos fatos e descobre que a morte ocorreu em terras estrangeiras e pelos fatos relatados por um sobrevivente, por um numeroso bando. Após essas revelações, retiram-se todos e o Coro clama aos deuses por ajuda.

     Édipo retorna a cena e ordena a busca e o destrato ao assassino, considerando Laio "seu próprio pai". Após esse comando, o rei conversa com o Corifeu (chefe do Coro) sobre o adivinho Tirésias que foi chamado para revelar o culpado e os desígnios divinos. Logo, o adivinho aparece com servos e discute com o rei se é válida a revelação do culpado, pois este afirma: "Eu causaria a minha desgraça, e a tua!". Depois de muita inquietação, Tirésias acaba revelando a verdade, porém o rei não acredita e pensa que é uma conspiração de Creonte para ocupar o trono.
     O adivinho lança vários questionamentos ao rei sobre sua origem e ele fica ainda mais encolerizado e expulsa Tirésias do palácio, enquanto o Coro reflete sobre o que foi dito. Creonte retorna a cena e relata ao cidadãos de Tebas que as acusações feitas contra ele são mentiras. Nisso, Édipo aparece e eles discutem. Jocasta entra para os apaziguar com o auxílio do Coro. Creonte se retira e o casal conversa sobre as aflições de Édipo e o fato de que ele é considerado o assassino por Tirésias.
     Jocasta comenta sobre o oráculo dado a Laio anos atrás e deixa Édipo perturbado por relembrar do próprio oráculo que havia recebido, com isso eles mandam chamar o sobrevivente do ataque ao antigo rei. Após se retirarem de cena, o Coro reflete sobre a burrice humana de tentar fugir do destino. Jocasta volta a cena e recebe o mensageiro que vem de Corinto com notícias de Políbio. Ele relata que o rei havia morrido e que o povo nomeava Édipo, seu soberano. O rei é chamado para receber a notícia e percebe que parte de seu destino havia se cumprido. Existe nessa cena uma momentânea felicidade, porém ainda certo receio do rei sobre o resto da profecia. Percebendo o receio, o mensageiro revela a Édipo que ele não tem nenhum parentesco sanguíneo com os soberanos de Corinto, pois o próprio mensageiro o havia entregue nas mãos do rei há muitos anos atrás e que um pastor, servo de Laio, o encontrara em uma montanha.
     Édipo se apavora com o que começa a se revelar em sua frente, mas não desiste de descobrir a verdade por mais que Jocasta o implore o contrário. O pastor entra em cena e com relutância conta a verdade sobre o rei Édipo. O Coro revolta-se contra o soberano e este é tomado pela dor retirando-se. Logo depois, um emissário relata o suicídio da rainha Jocasta e a mutilação do rei aos próprios olhos, ele se justifica dizendo: "Não quero mais ser testemunha de minhas desgraças, nem de meus crimes! Na treva, agora, não mais verei aqueles a quem nunca deveria ter visto, nem reconhecerei aqueles que não quero mais reconhecer!". A peça acaba com a troca de poder para Creonte, Édipo cego perambulando, conversando com o Coro e com o novo soberano até finalmente entrar no palácio com as duas filhas.


CITAÇÕES DO LIVRO 

(TRECHO 1: Creonte, que consultou o oráculo, traz as predições deste ao rei Édipo)

CREONTE
Tendo sido morto o rei Laio, o deus [Apolo] agora exige que seja punido o seu assassino, seja quem for.
ÉDIPO
Mas onde se encontra ele? Como descobrir o culpado de um crime tão antigo?
CREONTE
Aqui mesmo, na cidade, afirmou o oráculo. Tudo o que se procura, será descoberto; e aquilo de que descuramos, nos escapa.


(TRECHO 2: Édipo, após convocar ao palácio o profeta cego Tirésias e encolerizar-se pelo silêncio deste quanto à identidade do assassino do rei Laio, acusa-o do assassínio e recebe a verdade [que ainda não sabemos ser] e uma nova questão como réplica)


ÉDIPO
Pois bem! Mesmo irritado, como estou, nada ocultarei do que penso! Sabe, pois, que, em minha opinião, tu foste cúmplice no crime, talvez tenhas sido o mandante, embora não o tendo cometido por tuas mãos. Se não fosse cego, a ti, somente, eu acusaria como autor do crime.
TIRÉSIAS
Será verdade? Pois eu! Eu é que te ordeno que obedeças ao decreto que tu mesmo baixaste, e que, a partir deste momento, não dirijas a palavra a nenhum destes homens, nem a mim, porque o ímpio que está profanando a cidade és tu!

(...)
ÉDIPO
Nunca pensei que viesses aqui dizer tantas tolices; do contrário, não te mandaria buscar!
TIRÉSIAS
Tu me consideras tolo; mas para teus pais - os que te deram a vida - eu sempre fui ajuizado.
ÉDIPO
Que pais? Espera um momento!... Dize: quem me deu a vida?
TIRÉSIAS
Este dia mesmo far-te-á sabedor de teu nascimento, e de tua morte!




(TRECHO 3: Jocasta pensa tranquilizar Édipo ao referir-lhe da profecia de Laio, mas antes planta em seu marido, o rei, a semente da dúvida, o que o leva a convocar o servo que foi a única testemunha a sobreviver à ocasião do assassinato de Laio, com o fim de livrar-se da culpa, a qual já, imagina - mas não crê - sua)

JOCASTA
Ora, não te preocupes com o que dizes; ouve-me, e fica sabendo que nenhum mortal pode devassar o futuro. Vou dar-te já a prova do que afirmo. Um oráculo outrora foi enviado a Laio, não posso dizer se por Apolo em pessoa, mas por seus sacerdotes, talvez... O destino do rei seria o de morrer vítima do filho que nascesse de nosso casamento. No entanto, - todo o mundo sabe e garante, - Laio pereceu assassinado por salteadores estrangeiros, numa encruzilhada de três caminhos. Quanto ao filho que tivemos, muitos anos antes, Laio amarrou-lhe as articulações dos pés, e ordenou que mãos estranhas o precipitassem numa montanha inacessível. Nessa ocasião, Apolo deixou de realizar o que predisse!... Nem o filho de Laio matou o pai, nem Laio veio a morrer vítima de um filho, morte horrenda, cuja perspectiva tanto o apavorava! Eis aí como as coisas se passam, conforme as profecias oraculares! Não te aflijas, pois; o que o deus julga que deve anunciar, ele revela pessoalmente!
ÉDIPO
Como esta narrativa me traz a dúvida ao espírito, mulher! Como me conturba a alma!...
JOCASTA
Que inquietação te pode causar esta lembrança do nosso passado?

(...)

ÉDIPO Estou aterrado pela suposição de que o adivinho tenha acertado... Mas tu me elucidarás melhor, se acrescentares algumas informações.

(...)

ÉDIPO
Ah! Agora já se vai esclarecendo tudo... Mas quem te forneceu estas minúcias, senhora?

JOCASTA
Um servo que voltou, o único que conseguiu salvar-se.

(...)

ÉDIPO
Seria possível trazê-lo imediatamente ao palácio?
JOCASTA
Certamente. Mas... para que chamá-lo?
ÉDIPO
É que eu receio, senhora, já ter descoberto muita coisa do que ele me vai dizer.
JOCASTA
E por que a presença desse homem te poderá tranquilizar?
ÉDIPO
Vou dizer-te já: se o seu depoimento coincidir com o que disseste, eu estou salvo!


(TRECHO 4: O mensageiro de Políbio, de quem Édipo cria ser filho, traz ao rei Édipo a notícia de sua morte, juntamente da novidade de que daquele não era filho de sangue, o que discorre nas súplicas de Jocasta pelo fim das investigações de Édipo e na revelação de seus verdadeiros pais, quando o antigo servo de Laio é trazido ao palácio)

MENSAGEIRO
É que ele não era teu pai, como eu não sou!
ÉDIPO
E por que me considerava, então, seu filho?
MENSAGEIRO
Porque há muitos anos ele te recebeu, de minhas mãos!

(...)

JOCASTA
[Falando a Édipo] Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação. (À parte.) Já é bastante o que eu sei para me torturar.
ÉDIPO
(...) mas esses conselhos teus há muito me importunam!
JOCASTA
Infeliz! Tomara que tu jamais venhas a saber quem és!

(...)

ÉDIPO
A criança de quem se trata, tu lhe [referindo-se ao mensageiro de Políbio, o qual havia entregue Édipo ainda criança a Políbio] entregaste?
O SERVO
Sim! Melhor fora que nesse dia eu morresse!

(...)

ÉDIPO
E de quem a recebeste? Era tua? Foi-te entregue por alguém?

(...)

O SERVO
Diziam que era filho dele próprio. Mas aquela que está no interior de tua casa, tua esposa, é quem melhor poderá dizer a verdade.

(...)

ÉDIPO
Oh! Ai de mim! Tudo está claro! Ó luz, que eu te veja pela derradeira vez! Todos sabem: tudo me era interdito: ser filho de quem sou, casar-me com quem me casei e eu matei aquele a quem eu não poderia matar!



ÉDIPO EM SAMARRA


     Há, basicamente, duas correntes distintas sobre o destino: ou ele é predeterminado ou você traça ele de acordo com suas escolhas. Mas e se suas escolhas, na verdade for a própria pré determinação da sua sina e você apenas tem a impressão de tê-lo formulado?
     Em contos antigos o destino é sempre imutável, seja qual for sua escolha: lutar ou aceitar. Há um conto árabe, por exemplo, chamado "Encontro em Samarra".
     Neste conto, um comerciante se encontra com a Morte em Bagdah. Os dois se assustam e ele então, foge da cidade. O homem, a cavalo, percorre muitos quilômetros e no mesmo cidade alcança outra cidade chamada Samarra. Lá, ele acaba de novo se encontrando com a Morte na noite do mesmo dia, mas dessa vez pergunta a ela: "Por que se assustou quando me viu em Bagdah?". A morte, por sua vez, responde: "Me assustei pois, quando o vi, não acreditei. Como podia você estar em Bagdah, sendo que eu tinha um encontro marcado com você aqui, em Samarra, à noite?".
     Pois então, assim sai Édipo de Corintos. Com medo de matar o pai, tentando fugir do seu destino, acaba por correr exatamente em direção a ele. Tivera seu pai antes contado que Édipo era adotado. Tivera Édipo escutado atrás da porta uma conversa que o fizesse duvidar de sua origem. Tivera ido para qualquer outro caminho que não o que o levava a Tebas, teria, com certeza, desviado de sua sina.
     Se o destino tem uma escapatória, você pode acreditar ou não. Mas sei que uma linha sozinha não cria a vestimenta. E quem melhor para costurar a linha da vida, se não as Parcas?





- ANTÍGONA -

*
     Após a desgraça ocorrida na peça teatral grega “Édipo Rei”, Sófocles dá continuidade ao drama contando a tragédia de Antígona, filha de Édipo, evidenciando o conflito entre o poder do Estado e as tradições religiosas.
     A desgraça, parece ter sido o único legado deixado por Édipo a seus quatro filhos (Etéocles, Polinice, Antígona e Ismene), os quais lutam pelo poder com a partida deste para o exílio. Etéocles, primeiro a governar a cidade, acaba por não ceder o trono ao acordo de revezamento entre os irmãos, prejudicando Polinice. Este, revoltado, alia-se a cidade inimiga de Tebas e luta contra o irmão pelo trono. Na batalha, os dois acabam por morrer e, seu tio, Creonte, assume o trono de Tebas.
     Diante das perdas, Creonte estabelece um decreto que determina a Etéocles, baseado no direito e na lei, sepultura digna para descer ao mundo dos mortos e, a Polinice, que ninguém o guardasse em cova nem o pranteasse, sendo isto de grande ofensa à família e ao falecido. A peça então se inicia com Antígona solicitando a ajuda de sua irmã, Ismene, para realizar o sepulto do irmão contra a determinação da cidade, mesmo que a sentença para quem a transgredisse fosse apedrejamento. Ismene, porém, não concorda com a rebeldia da irmã, deixando-a sozinha para enfrentar o tirano Creonte.
     Demonstrando extrema coragem, Antígona não aceita a ordem de Creonte e expõe, diante de todos, sua opinião, enfrentando o estado e a sociedade machista da época de “exclusiva competência masculina”. Ela declara que as ordens de um simples mortal não têm o poder de superar as leis não escritas, perenes, dos deuses, que Zeus proclamou, e afirma que não pretende, por temor às decisões de algum homem, opor-se à sentença divina.
     Não conformado com a desobediência e ignorando todos os avisos vindos do povo e de seu filho Hemon, que antes de toda a confusão estava para casar com Antígona, Creonte julga-se de uma sabedoria superior e desafia a vontade divina, condenando Antígona à morte, levando-a a uma tumba onde permaneceria sozinha para morrer. O velho profeta Tirésias, então, aparece para avisá-lo de que, devido a seus atos, ao seu futuro só lhe restaria tragédias: “quem comete tais crimes será procurado pelas Fúrias dos deuses e da Morte, para ser punido pelos mesmos males”. Creonte, assustado, se arrepende do que fez a Polinice e vai atrás de Antígona com o intuito de retirá-la da tumba, porém já é tarde demais: esta é encontrada sem vida, enforcada, com seu próprio lenço. Hemon, desolado, suicida-se, na frente de seu pai e cai morto ao lado de sua amada. Eurídice, esposa de Creonte, triste pelo ocorrido com o filho, tira sua própria vida e culpa Creonte por toda a desgraça ocorrida.
     Ao fim da história, fica claro a Creonte, que se vê rodeado de desgraça, que contra os deuses, não convém agir: “palavras altivas trazem aos altivos castigo atroz”



CITAÇÕES DO LIVRO


(TRECHO 1: Antígona e Ismene discutem a proclamação de Creonte, na qual revelava que faria sepultar um e deixaria o outro cadáver dos filhos de Édipo - irmãos de Antígona e Ismene - à revelia, sem sepultura ou honra, o que faz Antígona se propor a sepultar o corpo, conclamando a ajuda da irmã)

ANTÍGONA
(...) Pois não sabes que Creonte concedeu a um de nossos irmãos, e negou ao outro, as honras da sepultura? (...)
ISMENE
Mas, minha pobre irmã, em tais condições, em que te posso eu valer, quer por palavras, quer por atos?

(...)

ANTÍGONA
Ajudarás estes meus braços a transportar o cadáver?

(...)

ISMENE
Infeliz! Apesar da proibição de Creonte?
ANTÍGONA
Ele não tem o direito de me coagir a abandonar os meus!

(...)

ANTÍGONA
(...) Será um belo fim, se eu morrer, tendo cumprido esse dever. (...) Quanto a ti, se isso te apraz, despreza as leis divinas!
ISMENE
Não! Não as desprezo; mas não tenho forças para agir contra as leis da cidade.


(TRECHO 2: Antígona é capturada em flagrante ao verter libações a Políbio, seu irmão insepulto, e é então levada a Creonte, com quem discute)

CREONTE
(...) Sabias que, por uma proclamação, havia proibido o que fizeste?
ANTÍGONA
Sim, eu sabia! Por acaso poderia ignorar, se era uma coisa pública?

CREONTE
E apesar disso, tiveste a audácia de desobedecer a essa determinação?
ANTÍGONA
Sim, porque não foi Júpiter que a promulgou; e a Justiça, deusa que habita com as divindades subterrâneas jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! (...)
CREONTE
(...) Esta criatura agiu temerariamente, desobedecendo as leis em vigor, e, para agravar, com uma segunda ofensa, a primeira, acaba de se gloriar do ato que praticou. (...)


(TRECHO 3: Creonte, já destituído de seu trono de prepotência ante às leis divinas e abatido pela morte do filho e subsequente morte da esposa, vê-se culpado e sucumbe ao desejo pela morte)

CREONTE
O horror me põe fora de mim… Por que não me feriram já, com uma espada bem cortante? Vejo-me desgraçado, e de todos os lados novas desgraças caem sobre mim!
O MENSAGEIRO
Ela, ao morrer, acusou-te, ó rei, de teres sido culpado pela morte de seus dois filhos!

(...)

CREONTE
Ai de mim! De tanta infelicidade, eu bem sei que sou o autor, nem poderiam elas nunca serem atribuídas a outro. Fui eu, somente eu, este miserável, que os matei… Servos… levai-me depressa… levai-me para longe… eu não vivo mais!... eu estou esmagado!

(...)

CREONTE
Que venha!... que venha! que apareça já a mais bela… a última das mortes que eu causei… a que me há de levar...no meu derradeiro dia… que ela venha! Que venha já! Eu não quero… eu não quero ver clarear outro dia.

(...)

O CORO
Não formules desejos… Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva!


FACETAS DA JUSTIÇA EM ANTÍGONA


     Percebemos que Antígona todo se trata sobre a clara luta entre a Justiça Divina X Justiça dos homens. Acho interessante, entretanto, levar em conta que não são necessariamente os deuses e símbolos clássicos de justiça que aparecem nessa história.

     A primeira faceta a aparecer é Bias: um homem, conhecido pela célebre frase "o exercício do poder põe um homem à prova...". A figura de Bias é evocada para simbolizar Creonte, rei que passa a não ser mais imparcial em suas noções, tornando-se um governador tirano. (Acho válido pensar que a tradução de "bias" do inglês é "parcialidade")
     A segunda faceta é a de Dike. Claro, uma das deusas da justiça mais conhecidas (aliás, quero aqui notar como a justiça é sempre retratada como uma mulher). Creonte, o rei tirano, desobedece à Dike - deusa dos julgamentos justos e protetora dos direitos estabelecidos pela lei e pelos costumes - ao proibir o velório de Polinice. Lembremos que o velório era para os gregos algo extremamente importante, pois uma alma não velada não atingiria o Hades, mas sim ficaria presa nas margens do Estige.


     A terceira e mais inusitada faceta é a de Eros. Sim, o Amor é justiça. "O amor equipara-se às leis supremas do universo". Maior ainda que a "simples" Dike. Se Dike coloca-se a defender as leis, Eros é tido como o invencível e leva os homens a se afastarem de Dike; tão potente que abala a razão e subjuga até os mais poderosos, levando os justos e virtuosos à injustiças e crimes. Eros levou Hêmon à morte, e também Antígona a cometer seu "crime".

     O Amor de Antígona (mulher, de novo, que cumpre a lei divina) se impõe ao Bias de Creonte, que ia contra Dike. Uma das frases mais bonitas da peça, que simboliza esse amor é uma de Antígona, que tenhamos ela para nós: "não nasci para partilhar de ódios, mas somente de amor"


COMPARAÇÕES ENTRE ÉDIPO REI E ANTÍGONA


     Sente-se, ao ler Édipo Rei, uma angústia enorme pelo personagem principal, tudo de trágico, ruim, acontece ao seu redor e por sua culpa. Mesmo sabendo sobre a profecia do oráculo - que dizia que ele casaria com a própria mãe e mataria o pai - ele decide se casar e gerar filhos, achando que sua esposa não era sua familiar, mata um homem - desconhecido por ele - na estrada por uma briga estúpida. Tudo sem preocupação com a profecia do oráculo. No fim, Édipo descobre que o oráculo estava correto, decide furar os próprios olhos "pois já não é mais digno de enxergar", e passa o resto de sua vida sofrendo por seus erros.
     Já em Antígona, percebemos uma dor "compartilhada", fazendo com que a tragédia fique, surpreendentemente, mais leve por não focar a desgraça em apenas uma personagem. No início da trama a dor está focada em Antígona, pois perdeu o irmão e não pode enterra-lo. Após ela conseguir, burlando leis, enterrar ele, a tragédia foca no guarda que "deixou isso acontecer" pois, pode ser morto a qualquer momento por esse descuido. Depois, o futuro marido de Antígona - filho de Creonte - sofre já que descobre que ela será morta, no fim, ele acaba se matando, o que faz sua mãe se matar - esposa de Creonte - que, no fim, é o mais prejudicado - sentimentalmente - na história. As pessoas mais importantes para ele se matam por uma decisão sua - de não deixar Antígona enterrar o irmão -.
     Analisando assim as duas obras percebe-se que ambas tratam de: tomar uma decisão e depois arcar com suas consequências. Toda a tragédia que provém das decisões de Édipo caem sobre ele, já as de Creonte afetam todas as pessoas envolvidas na história. O que torna “Antígona” uma história menos pesada é o fato de não “precisarmos focar nossa pena em apenas uma personagem” fazendo com que a dor se dilua em todas elas.

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