As Bacantes
AS BACANTES
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As Bacantes é uma tragédia grega escrita por Eurípedes, caracterizado por seu coro racional que incita a plateia, por volta de 400 anos a.C. O texto se passa na cidade de Tebas e se desenvolve em torno da linhagem de Cadmo, o fundador de Tebas. Para contextualizar um pouco, a própria peça inicia com a explicação de parte do mito de Dionísio.
Vamos pensar um pouco sobre isso, Dionísio é filho de Zeus com uma mortal, Semele. Esta mortal é filha de Cadmo, rei de Tebas (na época). Esse envolvimento dos dois, como na maioria dos romances de Zeus, acaba em tragédia para a mortal, que acaba sendo assassinada por Hera. No entanto, Semele estava grávida de Dionísio. Quando morre sem ter completado a gestação, Zeus pega o filho e o coloca na coxa para escondê-lo da fúria de Hera. Quando o menino nasce, ele percebe que é renegado na casa de sua mãe, que não acreditam que ele é filho de Zeus. Como o texto relata"Me denegriu quem não devia, as minhas tias maternas: 'Não é deus Dionisio! Não é filho de Zeus! Grávida de outro qualquer, Semele o inculpou pela própria falta.'"
Dionisio tenta esquecer esse desprezo familiar, viaja pelo mundo e cultiva seus ritos em outros lugares, porém ele retorna a Tebas para vingar-se. Percebe que a cidade não o adora e nem oferece libações. Em decorrência desse ultraje, sua vingança se baseia em fazer a sua família sofrer o que ele sofreu, principalmente as irmãs de sua mãe com uma atenção ainda maior para Agave, tornando-as suas adoradoras, as bacantes/mênades.
O texto começa com esta explicação sobre o nascimento de Dionisio e as circunstâncias de sua vingança. Na qual, as filhas de Cadmo e outras mulheres de alta estima da sociedade tebana enlouqueceram e subiram o monte para adorar o deus deslegitimado, Baco. Transcrito nos trechos:
"A turba fêmea ali demora: Dionisio a sequestrou com seu ferrão das rocas e teares."
"Bacantes, rápido! Bacantes, rápido! No luxo do áureo veio tmólio, celebrai Dionisio, ao rumor barítono dos tímpanos, alegrai com evoés o deus Evoé, gritos em língua frígia, enquanto, sonora, a flauta-loto sagra, com seu rumor, o rito lúdico, de quem se adentre monte adentro."
Enquanto tudo isso ocorre, Cadmo e Tirésias, o profeta, conversam sobre como eles, velhos, continuam adorando Dionísio e o resto da cidade não o faz mais. Em meio a esse questionamento, eles refletem sobre a sua velhice e sobre como todos estão errados ao deixar de prestar libações aos deuses, especialmente Dionisio.
"Se é velho ou moço quem deva integrar o coro, ao deus é igual: congraçamento é o que deseja, obter honras de todos, rejeita distinguir quem o engrandeça."
Penteu, filho de Ofídio-Equíon e Agave, entra em cena e relata os acontecimentos com as mulheres de Tebas. Relata também o aparecimento de um homem que diz ser servo de Dionísio. Encontra os dois falando sobre o deus e os repreende: "Envergonha olhar um par senil perder o juízo!". O próprio Penteu é repreendido por isso, como se o feitiço se voltasse ao feiticeiro.
"Blasfêmia desonrar deuses e Cadmo, que os dentes do dragão semeou! Teu pai é o Ofídio-Equíon: tua própria estirpe ofendes?"
Tirésias tenta convencer o jovem rei da importância de Dionisio e como o que seria melhor para ele e para a cidade é a adoração ao deus. Sem delongas, responde à crítica feita pelo jovem e fala como o deus não esquece de oprimir quem cruza o seu caminho e não obedece.
"Atenta, Penteu, peço-te: não penses que o poder é dono do homem, tampouco creias - há doença nessa crença! - que saibas algo. Acolhe o deus em Tebas, liba, dionisa-te, coroa-te de hera! Dionisio não impõe moderação à mulher, frente à Cípris; na natura o moderar-se em tudo está presente. Deves considerar que em bacanais não se corrompe quem é moderada. Te alegras quando o povo pára à porta e exalta o nome de Penteu: "Penteu!" Também àquele - penso – o honor agrada. Eu, pois, e Cadmo (tu escarneces dele), coroados de hera em coro dançaremos, dupla grisalha sim – urge dançar! Tua arenga não me induz à teomaquia. És louco irremediável: droga alguma te cura! Alguma droga te adoeceu!"
Cadmo também tem uma tentativa de convencer o neto a acreditar no deus. Apresentando o ponto de que mesmo se ele não for realmente um deus, é melhor acredita que sim para dar orgulho a nossa linhagem.
"Evita o seu sofrer! Coroado de hera, honora o deus em nossa companhia!"
Depois de várias tentativas de convencimento de ambos os lados, ninguém sai satisfeito. A ação é retomada quando um servo entra em cena e conta que tentaram prender as mulheres, mas suas algemas se desataram sozinhas como mágica. Outro fato interessante é o suposto servo de Dionísio, que no caso é uma faceta do deus, foi preso sem muito esforço e está aqui para conversar.
Neste momento, o "Dionísio" entra em cena e um diálogo entre ele e Penteu começa. Podemos caracterizar essa conversa como uma forma de interrogatório da parte do rei e bem espirituosa por sinal, como se estivesse acontecendo na polícia de um programa de tv. O interrogado com um tom irônico e astucioso e quem questiona com ameaça na voz e muitas interrupções. Eles repetem muitas coisas que já foram descritas e ficam discutindo sobre poder, até Penteu se irritar e prender Dionísio novamente. No entanto, logo ele se liberta com facilidade.
Um mensageiro entra em cena e conta ao rei sobre homens que queriam capturar as bacantes, porém elas revidaram ao perceber que eram homens. A conclusão principal do seu relato é a aceitação do deus na cidade, por essa ser a melhor opção. Como no trecho em que conta um pouco o que aconteceu:
"A cena, rei, era notável, pois dardos alanceados não sangravam; disparando seus próprios tirsos, elas traumatizavam, dando-lhes as costas - mulheres versus machos, mais o deus! Ao ponto de partida retrocedem, às fontes mesmas que do deus manaram. O sangue limpam e dragões-serpentes lambem o suor da cútis com a língua. Seja quem for, ó déspota, esse demo, posto que é magno, acolhe-o na cidade. Dele mais dizem, como me inteirei: aos homens trouxe a vinha acalma-a-dor. Se não há vinho, não há Afrodite, faltando ao homem, mágico, o deleite."
Penteu se irrita com essa notícia e tenta pensar em alguma solução para esse problema. Dionísio, percebendo que poderia se aproveitar dessa oportunidade, fala que só existe uma forma possível para "derrotar" as bacantes. Penteu precisa se vestir de mulher e encontrar as bacantes sem que elas notem que é um impostor, porque se notassem seria morte certa. Com esse argumento do homem, o neto de Cadmo perde o completo juízo e veste-se de mulher.
O suposto deus do vinho se exalta com a figura de Penteu transvestido, clamando o destino próximo e já predestinado do rei de Tebas:
"Mulheres, o homem caiu em nossa rede; até as bacantes vem, mas Dike, a Justa, o mata. À ação, Dionisio-deus presente! Urge puni-lo! Rouba-lhe a razão; insânia leve infunde-se ajuizado, não vai querer vestir-se de mulher, mas quererá, se não tiver bom juízo. Desejo que os tebanos riam do rei: conduzo-o pela pólis, fêmeoforme, outrora tão terrível nas ameaças... Enfeitarei Penteu. Que baixe ao Hades ínfero, pelas mãos da própria mãe dilacerado! Saberá que Zeus gerou à perfeição um deus: Dionisio, entre terribilíssimo e gentil!"
Dionísio convence Penteu de que ele está bem melhor agora sem sua insanidade contra Baco. Diz também que será seu guia até o monte das bacantes para completar o seu destino de 'derrotá-las' e retornar à cidade carregado nos braços da mãe desfalecido. Quando chega, o destino de Penteu é selado, as bacantes sob a liderança de sua mãe o matam e adoram ainda mais Dionísio com a chegado do guia.
A cena é retomada na cidade quando o mensageiro chega com a notícia da morte do rei. Relata a tentativa de Penteu ao esconder-se entre as pedras e como o próprio deus (com uma voz do além) o revela as bacantes:
"Jovens, conduzo quem de vós, da orgia mofava, ria dos ritos. A vós cabe a desforra!"
Fala também sobre como Agave, filha de Cadmo e mãe de Penteu o desmembrou e espalhou seu sangue pelo chão.
O coro fica horrorizado com a história, porém percebe o poder do deus. Logo, Agave retorna à cidade sendo recebida pelo pai, Cadmo. A mulher retorna com uma grande quantidade de carne que diz ser de um leão que ela e as bacantes capturaram para um banquete. Só que ela não sabe, em meio a sua insanidade, que esse "leão" é o seu filho Penteu. Cadmo tenta mostrar a realidade a filha:
"Peno por teu Penteu enormemente! Com miserandas mãos o executastes. Aos deuses ofereces bela vítima, e à festa nos convocas, eu mais Tebas. Teus males eu lamento, os meus também. O deus Rumor nos pune com justiça, mas se excede, nascido no palácio."
Ela retoma, tempo depois, a consciência por seus atos e fica desconsolada com as notícias. Para finalizar a história, depois de toda os problemas entre Dionísio e a descedência de Cadmo, Agave e o patriarca são exilados de Tebas.
Esse é um resumo mais simples da história que se passa em As Bacantes de Eurípedes. Ao ler esse texto, percebemos um contato muito diferente entre deuses e humanos do que em outras peças do período grego, principalmente por termos a vingança pessoal do deus aqui apresentada. No entanto, revemos o nosso conhecido termo 'destino', presente em praticamente todas as tragédias gregas, e como é impossível fugir dele. A solução dos problemas de Penteu estava sempre apresentada na sua frente, era só enxergar. O sistema de catarse também aparece ao percebermos isso, porque para quem está assistindo que consegue ver todos os ângulos é muito simples resolver as armadilhas no texto apresentadas.
SOBRE A OBRA
Dependendo da tradução, se torna uma peça difícil de compreender por seus muitos floreios e imagens distintas ao nosso comum. Tente começar por uma tradução mais tranquila ou com comentários se quiser entender a maior parte do apresentado. Contudo, isso é uma escolha própria.
É uma peça que, no contexto do século XXI, poderia ser considerada até mesmo engraçada com as múltiplas facetas de Baco que relembra um pouco a nossa sociedade de hoje. Os embates do próprio deus como homem X mulher, homem X deus, grego X estrangeiro podem ser comparadas com a dualidade ou multiplicidade dos conceitos de hoje. Tudo pode ser subjetivo e diferente para cada pessoa.
O que é mulher? O que é homem? São questões que não eram apresentadas antes, só eram jogadas por ai. Assim como a figura de Dionísio, que representava a mistura do preto e do branco, o encontro da loucura com o racional, as coisas que podiam ser boas ou ruins dependendo do limite. A ideia desse deus abria o leque para muitas coisas que a sociedade grega ainda não conseguia explicar, algo que ia muito além da filosofia da época. Era algo muito amplo para se resumir em poucas palavras. Por isso (talvez), existia essa representação ambígua que gerava o deus Dionísio. Como não devemos explicar ou tentar entender os deuses, tudo é mais simples.
Algo curioso sobre essa peça é que o tema das mênades era repugnado pela sociedade desde a antiguidade até Frederich Nietzsche no século XIX retomá-lo em O Nascimento da Tragédia, falando da conexão de Dionísio com o teatro. Depois disso, houveram várias releituras da peça que se tornaram bem populares.