Dom Quixote
Dom Quixote
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"Num lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança com cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor." Esta é a primeira frase de uma das obras-primas da literatura, escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes. O livro é dividido em duas partes, a primeira lançada em 1604 e a segunda, em 1615. As duas tem como personagem principal um fidalgo que era fissurado em livros de cavalaria e que de tanta leitura perdeu o juízo, começando a não ter mais noção entre o real e o imaginário no mundo. Ele se denominava Dom Quixote de La Mancha. O texto é um relato irônico sobre a decadência do gênero Novela de Cavalaria. No princípio do livro, ele tem uma epifania e acha sensato tornar-se cavaleiro errante, como seus ídolos:
"[...] parecer-lhe convinhável e necessário, assim para o aumento da sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama."
Ao perceber seu verdadeiro ofício, percebe que necessita de todas as características de um cavaleiro. Faltava nele um cavalo e uma donzela por quem lutar. Para conseguir o cavalo, simplesmente escolheu o rocim que ele tinha em casa, dando a ele o nome de Rocinante. Já a donzela, escolheu uma senhorita que só havia conhecido quando criança, chamava-se Dulcinéia Del Toboso. Decidiu então lutar por ela e fazer de sua força a imagem dela, tentando comparar sua vida às novelas de cavalaria, como no trecho:
"Em toda a noite não pregou olho, pensando na sua Senhora Dulcinéia, para se conformar com o que tinha lido nos seus livros, quando os cavaleiros passavam sem dormir muitas noites nas florestas e despovoados, enlevados na lembrança de suas amadas."
Depois dessa decisão, ele parte para a sua primeira aventura com seu cavalo Rocinante. Esta demora 3 dias e não tem muitos acontecimentos além do retorno de Dom Quixote e a queima dos seus livros de cavalaria. Após a primeira aventura falhar, ele retorna a casa e arranja um companheiro para as próximas aventuras:
"Neste meio tempo, solicitou Dom Quixote a um lavrador seu vizinho, homem de bem (se tal título se pode dar a um pobre), e de pouco sal na moleira; tanto em suma lhe disse, tanto lhe martelou, que o pobre rústico se determinou em sair com ele, servindo-lhe de escudeiro. Dizia-lhe entre outras cousas Dom Quixote que se dispusesse a acompanhá-lo de boa vontade, porque bem podia dar o acaso que do pé para a mão ganhasse alguma ilha, e o deixasse por governador dela. Com estas promessas e outras quejandas, Sancho Pança, que assim se chamava o lavrador, deixou mulher e filhos, e se assoldadou por escudeiro do fidalgo."
Os dois possuem um dinamismo muito característico e com muitas contradições. Como o autor descreve: Sancho Pança é pessimista, realista, covarde, gordo e baixo, Dom Quixote é otimista, sonhador, corajoso, esguio e alto.
Agora com companhia, Dom Quixote sai novamente em uma nova aventura que desta vez dura três meses e possuem muitas histórias. Em uma destas, Dom Quixote confunde moinhos de vento com gigantes prontos para atacar ele e Sancho Pança. O escudeiro até tenta persuadir o cavaleiro a enxergar o real, porém só consegue perceber quando leva uma "pázada" de um dos moinhos. O primeiro volume do livro termina com o fim dessa jornada dos dois com tantas aventuras que fica complicado colocar todas em resumo.
Já no segundo volume começa com diferentes perspectivas dos personagens principais, Dom Quixote e Sancho Pança. Parecem estar mais reflexivos e indo em direção a sua personalidade oposta, principalmente Sancho que está cada vez mais parecido com Quixote e começando a acreditar em suas bizarrices. Neste volume, Sancho consegue o que tanto queria, uma ilha e um título. No entanto, Dom Quixote perde a vontade de continuar com as aventuras ao acreditar que não tem o amor de sua amada. Por isso no final, os dois retornam a La Mancha para tratar de seus problemas mentais e o Quixote acaba morrendo.
No hiato que houve entre a publicação da primeira e da segunda parte, apareceu, assinada por um certo Alonso de Avallaneda, uma versão desfigurada do Quixote de Cervantes, com críticas dirigidas a ele. Cervantes vingou-se do caso respondendo às provocações na segunda parte de Dom Quixote, fazendo do livro do falso Quixote parte do verdadeiro.
Dom Quixote é o livro escrito em espanhol mais lido de todos os tempos, tendo vendido mais de 500 milhões de cópias.
Foi considerado em uma eleição promovida pelo Instituto Nobel da Noruega em 2002 como o melhor livro de ficção de todos os tempos.
Algo muito interessante sobre esse livro é a interação do autor com o leitor, como neste trecho, no qual ele diz que não compreende as atitudes de tal personagem mas continua descrevendo a história:
"Chegando o tradutor desta história ao quinto capítulo, diz que o tem por apócrifo, porque nele fala Sancho Pança com um estilo diverso do que se podia esperar do seu curto engenho, e profere coisas tão sutis, que não julga possível que ele as soubesse; mas que não deixou de traduzi-lo, para cumprir o que devia ao seu ofício [...]."
AVALIAÇÃO
Dom Quixote convoca o leitor a acompanhar a insana dupla em suas andanças, presenciando as cenas como se ali realmente estivesse, tamanha é a imersão que o livro provoca com seu filtro realista. A narrativa é fluida e gostosa de ler, cumprindo o papel de levar o leitor a uma experiência de reflexão e de diversão, sendo recheada de momentos introspectivos e outros engraçados, prendendo o leitor à leitura, fazendo rir, chorar e pensar ao longo de suas lindas e tocantes partes.