Hamlet


HAMLET 
DE WILLIAM SHAKESPEARE
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        Hamlet, sendo uma das peças mais conhecidas de Shakespeare, foi escrita por volta de 1600 e relata uma das mais belas e dramáticas leituras sobre o confronto da loucura com a razão.  A peça, se inicia com os guardas de sentinela conversando sobre uma possível aparição de um fantasma que aparecia para estes, porém nada vos dizia. Ao vê-lo, tinham medo, por sua semelhança com o falecido rei. Com a morte súbita do Rei Hamlet, a recém viúva Gertrudes casa novamente, menos de dois meses após o ocorrido, com Cláudio, seu cunhado. Fato que foi considerado muito inconveniente e demonstrava, principalmente para o príncipe, seu filho, falta de sentimento por parte da rainha.
O príncipe, Hamlet, ficou muito abalado com a morte do pai o qual muito amava e venerava e não compreendia como sua mãe podia ter casado com um homem tão diferente de seu pai como seu tio, tão vil em aparência como em caráter. Entre o pesar da morte do pai e a vergonha do casamento de sua mãe, Hamlet entra em profunda melancolia, perdendo toda sua alegria e esquecendo-se de seus costumeiros prazeres, entre eles, a leitura. Diz a sua mãe que nem todas as demais modalidades da mágoa poderão nunca, em verdade, defini-lo. Não entendia como, sua mãe, se mostrava tão esquecida da memória de seu pai.
Tudo que foi feito para distraí-lo, foi em vão. Continuou a vestir preto em todos os momentos, e continuava, desde sempre, vendo a morte de seu pai como algo sem sentido. Fato que o enlouquecia. Horácio, então, conta que havia visto uma figura parecida com o rei na esplanada, junto com Marcelo e Bernardo, na hora morta da meia noite, pela terceira vez. O príncipe, então, alega que, na próxima noite, montará guarda com eles.
Enquanto a noite não chega, no quarto de Polônio, Laertes que está para viajar, fala para sua irmã, Ofélia, ter cuidado com o príncipe, que a havia feito promessas de namoro, dizendo-lhe que fique na retaguarda dos anseios, a coberto dos botes dos desejos. E esta alega não saber o que pensar diante das propostas de afeição do príncipe.
Por fim, com a chegada da noite, o príncipe Hamlet e seus amigos se encontram na esplanada, e, na hora esperada, se deparam com o espectro do rei falecido. Ignorando o medo que sentiu, Hamlet dirige algumas palavras para o fantasma, e o indagou por que motivo não encontrara repouso em seu túmulo. O fantasma acena para Hamlet indicando que o siga para um local mais afastado para que possam ficar a sós, porem Horácio e Marcelo tentam dissuadi-lo, afirmando que pode ser algum tipo de armadilha. Porém o príncipe não lhes dá ouvido.
        Finalmente estando a sós, o fantasma afirma ser seu pai e conta a verdade sobre sua morte, e como fora brutalmente assassinado por seu irmão Claudio, que queria seu trono. Contou que estava a dormir no jardim quando seu irmão se aproximou e o envenenou pelos ouvidos. Logo, pede que o vingue por ele, e que não deixe que o trono da Dinamarca fique com tal homem.
        Enquanto pensa em como agir, o príncipe, com medo que seu tio desconfiasse de alguma coisa, finge-se de louco e engana o rei e a rainha que acreditam a doença de Hamlet ser, além da morte do pai, o amor. Porém, as preocupações que estava sofrendo fizeram com que esquecesse seu amor por Ofélia, continuando com sua atuação, demonstra indiferença a moça. Porem se arrepende de ser duro com Ofélia, e envia-lhe outra carta cheia “da mais arrebatada paixão. ” Porem o príncipe nunca esquecia da promessa que havia feito a seu pai e, também, do quanto era difícil de cumprir. Até mesmo duvidava, se teria sido realmente com seu pai que havia conversado, ou algum diabo aproveitando-se de sua fraqueza.
Com a chegada de alguns comediantes à corte, após assistir uma peça que gostava muito, o príncipe, percebendo o poder da ficção em comover o público, determina que os atores iriam encenar exatamente o ocorrido com seu falecido pai, o que os atores, sem saber da verdade, aceitam. Logo, veria, como seu tio agiria a tal ocorrido, porem este não consegue manter-se no seu lugar até o fim do espetáculo. Fato que convenceu Hamlet da veracidade contada pelo fantasma.
A rainha, sua mãe, manda chama-lo para uma conversa privada em seus aposentos, por vontade do rei, que pede a polônio que se coloque atrás dos reposteiros para ouvir tudo. A rainha começa afirmando que havia feito uma grande ofensa a seu “pai”, referindo-se ao novo rei, o que faz o príncipe replicar com aspereza, que quem fez grande ofensa a seu verdadeiro pai foi ela. A rainha começa a se assustar com medo que seu filho lhe faça algum mal e começa a gritar, logo, uma voz sai de traz dos mosteiros e Hamlet, acreditando ser seu tio, cravou-lhe a espada. O fantasma de seu pai aparece novamente porém agora aparece apenas para Hamlet, pedindo-lhe que não se esqueça da prometida vingança.
        A deplorável morte de polônio deu ao rei motivos para afastar Hamlet do reino. Porém seus planos não dão certo e Hamlet volta ao reino. Ao chegar, se depara com o triste enterro da Ofélia, que havia morrido transtornada com a morte do pai pelas mãos de seu amado. Hamlet sente renascer seu antigo amor, porém Laertes, irmão de Ofélia, fica furioso com Hamlet estes combinam um torneio de esgrima, o qual Hamlet aceita. Porém o rei havia combinado com Laertes de envenenar a espada, a qual Laertes finca no corpo de Hamlet e, com o pouco tempo de vida que lhe resta, este também finca Laertes com sua própria espada, sendo vítima da própria maldade.
        Logo após, a rainha afirma ter bebido algo envenenado pois bebera uma taça que o rei preparara para Hamlet, porém esquecera de prevenir a rainha. Porém Laertes sabendo que logo todos morreriam pelo veneno, conta tudo sobre o plano de seu tio. De súbito, Hamlet então, notando um pouco de veneno ainda na espada, crava-a no peito de seu tio, cumprindo, assim, sua promessa. Por fim, pede a Horácio que viva para contar sua história ao mundo.   


CURIOSIDADES


Há uma visão muito difundida da loucura nessa peça, que demonstra como o príncipe, não apenas finge loucura, por meio do uso de roupas estranhas, por exemplo, mas se encontrava realmente a beira da loucura. A morte de seu querido pai já o havia deixado muito melancólico, o casamento precoce de sua mãe o havia deixado decepcionado com esta. Já não se encontrando em bom estado, o príncipe ainda se depara com a aparição de seu pai e carrega consigo a cruel missão de vingá-lo por sua morte.
Hamlet se encontra, assim, dividido entre o amor que sentia por seu pai, e a injustiça de sua morte, e o fato de ter de matar um homem que, não sabia com certeza se havia realmente praticado tais atos. Hamlet encontra-se profundamente perturbado, esquece de seus costumes e das coisas que gostava, entre estas, sua amada Ofélia, e perde-se em seus pensamentos. O que o marca, foi carregar, sozinho, o peso da morte injusta de seu pai, sabendo que era o único que podia vingá-lo.  



AVALIAÇÃO

Hamlet busca o contraste, coloca em cena a condição de desgraçado do homem, uma vez que não pode, no decorrer da vida, deixar de tomar decisões e arcar com as decorrentes e potenciais consequências. Hamlet é o centro da peça e é esmiuçado na condição de órfão que tem um pai a vingar: dele conhecemos os motivos, reflexões e sua situação como um todo. Os adornos da obra, personagens que interagem com Hamlet e tomam variadas atitudes diante da situação mostram de forma verossímil os interesses nas relações, o limite dos valores morais e pessoais, a interferência das pessoas nas vidas umas das outras. Shakespeare faz da personagem um estudo minucioso e nos dá através deste estudo um homem que é acossado por uma decisão a tomar e todo o seu entorno dificulta a resolução, tornando um problema em uma teia de problemas, como forçosamente haveria de ser. Apesar de a peça ser de longa duração, a riqueza da trama, a profundidade e beleza das abundantes - e infinitas - reflexões que o livro provoca no leitor fazem dele uma necessidade em qualquer lista de clássicos da literatura.



TRECHO

Hamlet encontra Cláudio rezando, desarmado, e hesita em matá-lo para não fazer-lhe bem, acreditando que matando-o em semelhante momento faria com que fosse enviado ao Paraíso:


REI: (...) Oh, meu delito é fétido, fedor que chega ao céu;
Pesa sobre ele a maldição mais velha,
A maldição primeira - assassinar um irmão!
Nem consigo rezar - embora a inclinação e a vontade imensa.
Mas se a vontade é grande, minha culpa é maior.
Como homem envolvido numa empreitada dúplice.
Hesito e paro, sem saber por onde começar;
E desisto de ambas. Mas, mesmo que esta mão maldita
Tivesse sua espessura duplicada pelo sangue fraterno,
Será que nesses céus clementes não haveria
Chuva bastante pra lavá-las de novo brancas como a neve?
Pra que serve a piedade, senão para apagar a face do delito?
E o que é a oração senão essa virtude dupla -
Evitar nossa queda; ou perdoar-nos, depois,
Então, eu olharei pro alto; pra resgatar minha culpa.
Mas, que forma de oração pode servir meu intuito?
“Perdoai meu torpe assassinato?"
Isso não pode ser, pois retenho a posse
Dos benefícios que me levaram ao crime -
É possível ser perdoado retendo os bens do crime?
Nas correntes corruptas deste mundo
As mãos douradas do delito podem afastar a justiça -
Como tanto se vê - o próprio lucro do malfeito
Comprando a lei. Mas não é assim lá em cima;
Ali não há trapaças. Lá a ação se mostra tal qual foi,
E nós, nós mesmos, somos compelidos a prestar testemunho,
Olhando nossas culpas no dente e no olho.
E então? Que resta? Ver o que pode o arrependimento.
O que não pode? Mas o que pode, quando não conseguimos nos arrepender?
Que lamentável estado! Peito negro como a morte!
Oh, alma cheia de visgo, cuja luta pra ser livre
Ainda a embaraça mais. Socorro, anjos! Um esforço, por mim!
Dobrem-se, joelhos orgulhosos; coração de tendões de aço,
Fica suave como a carne tenra do recém-nascido!
Tudo pode sair bem. (Se move para um lado e se ajoelha. Entra Hamlet.)


HAMLET: Eu devo agir é agora; ele agora está rezando.
Eu vou agir agora - e assim ele vai pro céu;
E assim estou vingado - isso merece exame.
Um monstro mata meu pai e, por isso,
Eu, seu único filho, envio esse canalha ao céu.
Oh, ele pagaria por isso recompensa - isso não é vingança.
Ele colheu meu pai impuro, farto de mesa,
Com todas suas faltas florescentes, um pleno maio.
E o balanço desse aí - só Deus sabe,
Mas pelas circunstâncias e o que pensamos
Sua dívida é grande. Eu estarei vingado
Pegando-o quando purga a alma,
E está pronto e maduro para a transição?
Não.
Pára espada, e espera ocasião mais monstruosa!
Quando estiver dormindo bêbado, ou em fúria,
Ou no gozo incestuoso do seu leito;
Jogando, blasfemando, ou em qualquer ato
Sem sombra ou odor de redenção.
Aí derruba-o, pra que seus calcanhares dêem coices no céu,
E sua alma fique tão negra e danada
Quanto o inferno, pra onde ele vai. Minha mãe me espera;
Este remédio faz apenas prolongar tua doença; (Sai.)

(SHAKESPEARE, William. Hamlet, https://liviafloreslopes.files.wordpress.com/2014/10/shakespeare-hamlet.pdf . p.66 - 68)

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