Lancelot
LANCELOT, O CAVALEIRO DA CHARRETE
*
CHRÉTIEN DE TROYES
Pouco se conhece sobre a vida do criador da epopeia cortês francesa, Chrétien de Troyes, porém sabe-se que é da região de Champagne, provavelmente nascido em Troyes por volta de 1135. Escreveu sete romances, seis deles referem-se a lenda arturiana. Entre eles, Lancelot, o cavaleiro da charrete, Chrétien compôs “por ordem” de Marie de Champagne, filha de Leonor da Aquitânia. Foi fornecido a ele, pela princesa, o assunto e a tese sobre a qual ele deveria escrever, sendo possível que tal seja um eco dos debates de amor dirigidos pela condessa, no qual, devido ao enredo, Chretién celebra o “fim amor” cantado pelos trovadores.
ENREDO
A história de Lancelot, se inicia com a festa da ascensão, onde Arthur havia reunido a corte. Sobreveio, de surpresa, um cavaleiro armado que se pôs diante do rei e, sem o saudar, disse:
“Rei Arthur, retenho em meu pode uma parte de tua terra e da gente de tua casa: cavaleiros, damas e donzelas. Mas não te dou tais novas com intenção de os devolver. Ao contrário, quero informar que não tens força nem bem com que os possa reaver. E fica sabendo que morrerás sem os conseguir socorrer. ”
Logo, antes de sair da porta do salão, o cavaleiro vira e diz, que se tiver um só cavaleiro de tal mérito que o rei confiaria o bastante para levar a rainha até o bosque para encontra-lo, avisa que devolverá os exilados e que ainda precisarão tomar dele a rainha. Dessa forma, a notícia se espalhou e chegou até Kai, o senescal, que deixa de comer e vai até o rei e diz cheio de cólera que nunca mais os servirá, a não ser que este deixe-o levar a rainha para o cavaleiro que aguarda na floresta.
“O rei sofre; não se desdiz em cousa alguma, mas está tomado de dor e cólera, que transparecem em seu rosto. A rainha também sente grande tristeza. E toda a gente da casa afirma que foi por orgulho, empáfia e insensatez que Kai pediu a rainha. ”
Por fim, O rei entrega-lhe a rainha. Porem Sire Gawain diz então ao rei, seu tio, que agistes como na infância, e isso o espantava. Afirmando que deviam ir atrás do cavaleiro, junto com todos que quiserem segui-los. Porém, encontram Kai a pé sozinho, sem a companhia da rainha. Sire Gawain encontra outro cavaleiro e estes ficam responsáveis pelo resgate da Rainha Guinevere. No caminho, encontram um anão, condutor de uma charrete, que informa ser capaz de dar informações sobre o paradeiro da Rainha, caso os cavaleiros se dispusessem a o acompanhar no trajeto.
Andar em uma charrete se tratava de uma desonra para um cavaleiro, não só porque criminosos a utilizavam, mas porque a ação de ser transportado não condizia com seu código de conduta. Sire Gawain não sobe na charrete para manter sua honra intacta. Lancelot, desprovido de montaria, é levado pelo seu amor por Guinevere a subir na charrete, ato constantemente lembrado no decorrer da narrativa por lhe fazer ser considerado um ser vil.
No caminho, encontram uma charrete guiada por um anão, este alega que apenas dará noticias sobre o ocorrido com a rainha se eles fossem com o anão dentro da charrete. Ser conduzido em uma charrete, naquela época, era sinal de desonra. Apenas bandidos, ladrões e prisioneiros eram postos nas cruéis charretes. Sire Gawain, continua a cavalo, e outro cavaleiro, que está a pé, começa a refletir:
“É que razão, separada de amor, diz-lhe que evite subir. Ela ralha e lhe ensina a nada fazer nem empreender eu possa levar a desonra ou exprobração. Essa razão não está no coração, mas na boca. Porem Amor está no coração encerrado e lhe manda e ordena que suba depressa à charrete. Amor assim quer, e o cavaleiro sobe. Não lhe importa a vergonha, pois amor ordena e quer.”
Então eles se põem a caminho, um cavalga, outros dois vão em charrete, em direção a um imponente castelo. Ao chegarem, o anão faz o cavaleiro descer e some. Dois valetes vão em direção a eles, os desarmam e os vestem com mantos. Na hora da ceia, uma donzela se aproxima de Sire Gawain e o faz companhia, dizendo-lhe que se preparam leitos para eles. No seguinte dia, estes veem pela janela passar um ataúde e dentro, um cavaleiro com três damizelas, entre elas, a rainha.
Os cavaleiros pedem armas e são recebidos pela damizela que os ajudou com cavalos e uma lança, em sinal de amizade e concórdia. O mais breve possível, os cavaleiros partem por onde viram afastar-se a rainha.
No meio do caminho, se deparam com uma damizela para a qual dirigem uma pergunta a respeito do paradeiro da rainha, aquela apenas diz indicar se os cavaleiros a jurassem seguras promessas, afirmando que quem quiser entrar naquele pais poderá sofrem grande penar e grandes dores. Os cavaleiros afirmam que estão a seu serviço com todos seus poderes, e a damizela então fala:
“Por minha fé, senhores, foi Meleagant, um cavaleiro corpulento e alto, filho do rei de Gorre, que a prendeu e colocou em seu reino donde nenhum forasteiro retorna. Por força, la permanece em servidão e exílio.”
Então a damizela fala que existem dois caminhos muito perigosos para ir ao país, e os explica sobre os dois. Sire Gawain combina com o cavaleiro da charrete de ir pela “ponte-sob-a-água” e este pela “ponte-de-espadas” o cavaleiro prossegue seu caminho e após um tempo se depara comum vau, onde, do outro lado da margem, há um cavaleiro armado protegendo o vau. O cavalo do cavaleiro da charrete, porem, se encontrava com muita sede e se dispara em direção ao vau para beber água. Após muitos avisos do cavaleiro armado, alegando que este não podia ultrapassar, o armado atinge o da charrete, e esse acorda do devaneio em que estava sobre sua vida e o amor, o qual não deixou ouvir o exigido pelo armado.
Após ser golpeado, para ele, sem motivo, desafia o cavaleiro que o atingiu. Assim, suas espadas se golpeiam sem fim nem repouso, no fim, o guardião da vau foge, deixando-o passar, fazendo com que o outro o siga e o derrube a tabefes.
“Má inspiração tivestes de me fazer cair no vau e despertar de meus pensamentos.”
Nosso cavaleiro não o mata por pouco. Seguindo seu caminho, encontra uma damizela que o oferece morada para que repouse esta noite, porem com uma condição, que este se deite com ela. Com pesar, ele ainda, mas não queria se deitar com a moça. Após entrar e fazer farta refeição com a damizela, esta pede que vá ao pátio, para que ela possa se preparar. Quando este volta, ouve gritos e encontra-a descoberta, nas mãos de outra cavaleiro que iria tiver proveito dela. No fim ele a salva, porém não consegue deitar com ela, e esta entende e vai para seu leito, triste. Na hora de partir esta pede que vá com este de acordo com uma tradição que havia naquele tempo.
Durante o caminho, nosso cavaleiro, que agora no livro aparece com nome de Lancelot, se depara com um mosteiro e, perto do coro um cemitério cercado de muros, no qual ele entrapara rezar. Descobre que, naquele local, há túmulos que revelavam o nome daqueles que mais tarde ali repousariam. Logo pergunta a um monge do cemitério sobre um grande e belo tumulo que encontra e este diz que nunca ele conseguiria ver seu interior pois está coberto por uma pedra muito pesada, que ninguém conseguiria levantar sozinho. As letras escritas em cima, dizem:
“Quem sozinho levantar esta pedra libertará aqueles que estão prisioneiros nesta terra, de onde não podem sair nem servo nem gentil-homem nascido ao redor. Ficam presos aqui os forasteiros, mas as pessoas do país entram e saem como lhes apraz. ”
Porém, Lancelot o abre sem esforço, comprovando que era uma pessoa destinada a grandes feitos. A damizela que estava consigo fica honrada e quer saber seu nome, porem ele não diz, e esta pede permissão para o deixar. No meio do caminho encontra um vassalo que lhe oferece estadia segura pois já estava noite. Já na casa do vassalo, Lancelot não diz seu nome, porem diz que estava atrás da rainha e que por ser mais perto, ele iria passar pela ponte-de-espadas. Os filhos do vassalo pedem permissão para o seguir, e o pai deixa-os.
Durante o trajeto Lancelot ultrapassa por todos os desafios e vence todos os inimigos que encontra, até chegar à ponte-de-espadas.
“Apeiam à entrada dessa ponte terrível. Veem a correnteza traiçoeira, rápida e borbulhante, negra e espessa, tão feia e apavorante como se fosse rio do diabo.”
O cavaleiro a atravessa destemidamente, e sendo a sua prancha formada por uma espada polida e afiada. Na outra margem estava Rei Bandemagus e Meleagant, seu filho e sequestrador da Rainha. O Rei tenta aconselhar o filho a entregar a Rainha para o cavaleiro que conseguira a façanha de atravessar tão terrível ponte para resgatá-la, e que escolha a paz, mas seus esforços de nada adiantam.
Os dois cavaleiros entram em combate pela Rainha e, mesmo ferido, depois de muitos esforços, Lancelot vê a rainha, seu amor, assistindo o combate pela janela, e nele crescem força e ousadia, saindo vitorioso do combate. Guinevere é devolvida ao cavaleiro, porém finge desagrado e fere seus sentimentos. Com o decorrer dos acontecimentos e a noticia falsa da morte de Lancelot, Guinevere acaba por admitir viver por este, e se recusa a comer e beber. Vendo que era mentira, ambos, ao se encontrarem, percebem que o amor é recíproco. Por mais que sua noite de amor quase tenha sido descoberta no dia posterior, devido ao sangue deixado pelo amante nos lençóis da Rainha, uma nova batalha é prometida entre Lancelot e Meleagant, porem desistem da luta. Por fim, Lancelot quando vai a procura de Gwain é traído e some. A rainha, o resgatado Gawain e Kai retornam ao reino de Artur, esperando que Lancelot esteja lá, mas era mentira, este estava aprisionado por Meleagant. Um torneio foi organizado no reino de Artur para que as moças da nobreza conhecessem valentes cavaleiros.
A notícia chegou até o reinado de Bandemagus, deixando Lancelot extremamente triste. Diante da apatia do cavaleiro, que já não se alimentava mais, a senhora que era esposa de seu algoz o libertou com a condição de que ele retornasse para que Meleagant não punisse sua família. Lancelot foi até o torneio disfarçado, sendo reconhecido apenas pela rainha. Após sua vitória retornou rapidamente à casa do solar, onde voltou à condição de prisioneiro. Como punição, Meleagant ordenou que o prendessem em uma torre, o que se realiza.
Assim, a história chega ao fim. Há, também, uma continuação escrita por Geoffroy de Lagny, feita com pleno consentimento do autor Chretien.
LANCELOT E O AMOR CORTÊS
Amor cortês foi um conceito europeu medieval usado para enaltecer o amor e o ideal cavalheiresco, pressupondo uma concepção platônica e mística do amor. Mesmo sendo este apenas verdade nos livros como uma ficção, mostra uma visão diferente da mulher, onde esta deixa de ser um objeto que visava afirmar acordos entre famílias e recebe uma imagem respeitável, que pode agir de forma mais livre, a ponto de escolher quem mais a agrada.
Por amor à rainha, Lancelot não apenas arrisca sua vida várias vezes em meio a grande sofrimento, como demonstra ser fiel à sua amada, demonstrando sério pesar quando há de deitar com outra damizela. Para socorrer a rainha, também enfrenta grande desonra quando decide subir na charrete para conseguir informações sobre seu paradeiro. E, mesmo assim, Guinevere nunca se mostra muito satisfeita com seus grandes feitos, entre eles, o de salvá-la das mãos de Meleagant.