Robinson Crusoé
ROBINSON CRUSOÉ
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Nascido em Londres em 1660, Daniel Defoe produziu mais de quinhentos livros sobre os mais variados temas. Teve grande influência no desenvolvimento do romance inglês, sendo que muitos o consideram o primeiro verdadeiro romancista. Voltou-se para a ficção relativamente tarde na vida e, em 1719 publicou sua grande obra imaginativa, Robinson Crusoé, que nos renderá o referente trabalho.
A história se passa no século XVII e começa com o nosso personagem principal, e narrador, Robinson, em sua cidade natal, York, sonhando com o desejo de se dedicar à vida do mar; sonho que o dominava totalmente e ia de encontro às vontades de seus pais, que o achavam uma utopia inimaginável: “deixar a casa paterna e sua pátria, onde tem amparo e prováveis chances de enriquecer aplicando seus conhecimentos, para se entregar aos riscos da vida no mar”. E foi justamente à sua “loucura de rapaz” que Robinson seguiu quando, encontrando um amigo que ia embarcar para Londres, foi rumo a sua primeiríssima – e frustrada – viagem mar adentro. Assim Robinson nos conta no livro:
“ Duvido que tenha existido um aventureiro cujos infortúnios começassem mais cedo e durassem mais tempo que os meus”.
Tudo isso, devido à furiosa tempestade que os atingiu e o surpreendeu de forma drástica. Chegando em Londres, Robinson reflete muito sobre suas atitudes e sobre o que faria com sua vida a seguir.
“ Regressar ao lar era evidentemente a solução mais acertada; mas a vergonha afugentava de mim essa ideia” ... “ essa impressão me fez pensar quanto é perversa e pouco sensata a maioria dos homens, sobretudo dos jovens que, em lugar de agirem com a razão, em tais circunstâncias, tem ao mesmo tempo vergonha de pecar e vergonha de se arrepender; achando mais vexatórias as ações que devem fazê-los passar por insensatos, do que o arrependimento, que pode revelar a sua correção. ”
Este resolve, então, embarcar para uma viagem à Guiné com um capitão de navios que havia conhecido em Londres. Durante a viagem, são surpreendidos por um corsário turco que os ataca e faz Robinson de prisioneiro em Salé. Só encontrando chances de fugir dois anos depois, Robinson ficou trabalhando como um prisioneiro até o dia em que seu senhor exige que ele vá pescar com Xuri, um escravizado mouro, e estes fogem com o barco, o qual, após longos dias turbulentos, acaba sendo resgatado por um navio português de cujo capitão torna-se grande amigo e, por fim, Robinson é deixado em terras Brasileiras. No Brasil, Robinson viveu um tempo na casa de um homem que possuía uma plantação e uma fábrica de açúcar, indicado pelo capitão que o havia salvado. Logo depois, nosso personagem principal conseguiu arranjar terras brasileiras e prosperava com seus trabalhos em sua própria plantação. Se tivesse continuado a viver como estava, Robinson poderia ter enriquecido, mas cada dia que passava, ia cedendo à sua paixão desenfreada de correr o mundo e, dessa forma, brinca:
“ Aumentar o número dos meus erros, aumentando os motivos com que teria de me lastimar futuramente. ”
Certo dia, três plantadores foram à procura de Robinson com uma proposta de armar um navio para ir à Guiné, às escondidas do governo, com o intuito de procurar escravos, pois estes estavam cada vez mais caros. Para Robinson, foi impossível resistir a essa oferta. Porém, novamente, um temporal não apenas estragou seus planos como, no ápice do terror, arremessou Robinson e os outros homens para fora do navio. No final, ele se encontrava sozinho em uma ilha desconhecida e deserta. Como consta no livro:
“A minha situação era horrorosa, pois me achava molhado e não tinha roupa para trocar; sentia fome, e não tinha nada para comer; sentia sede, e nada tinha para beber; estava fraco e de nada dispunha para me fortalecer; ”... “ durante algum tempo, corri de um lado para outro como um insensato”.
Porém, dando continuidade a história, Robinson se mostra extremamente habilidoso e cuidadoso com sua estadia naquela ilha. Aos poucos, conseguiu ainda subir ao navio – que se encontrava completamente destruído – para usufruir de objetos e ferramentas que havia dentro deste, as quais foram de muita utilidade para sua sobrevivência. Construiu, com alguns machados e ferramentas, uma barraca que ia a cada dia que se passava melhorando até torná-la em uma “caverna” para sua proteção de chuva e caso algum animal o atacasse. Com a espingarda e a pólvora encontrada no navio, conseguia caçar e ter o que comer, e com o pouco que tinha de pena e tinta, começa a escrever um diário, o qual nos mostra alguns trechos no livro. Dessa forma, a história se dá continuidade contando-nos muitos detalhes sobre os dias de Robinson e tudo que conseguia fazer para sobreviver, ao mesmo tempo que pensava em sua atual situação:
“ Pois bem, dizia eu comigo em voz baixa, estou numa miserável condição, é verdade; mas, onde estão meus companheiros? Não éramos onze no escaler? Onde estão os outros dez? Por que é que eles não se salvaram e eu não me perdi? Por que fui o único poupado? Que é melhor? Estar aqui ou ali? (Ao mesmo tempo eu apontava o mar com o dedo).
Passados alguns dias, Robinson adoece e a febre o faz delirar, sonhando com um homem que descia das nuvens para à terra, no meio de fogo e chamas. O seu semblante aterroriza-o, e profere tais palavras: “ morrerás, porque não te arrependeste à vista de tantos sinais”. O que o fez pensar muito sobre o que seu pai o havia dito com a intenção de impedi-lo de sair de casa:
“ Advertia-me de que, se desse esse mau passo, Deus não me daria a sua benção e, futuramente, eu me arrependeria do desprezo em que tivera os seus conselhos, sem ninguém para me consolar”
Mal da febre, Robinson se lembra de que no brasil usavam o fumo para se recuperar de doenças, e fez uso do que tinha encontrado no navio, assim como da bíblia que, lendo, encontrou palavras muito aplicáveis ao estado em que se achava:
“ Invoca-me no dia da tua aflição, e eu te livrarei, e tu me glorificará. ”
Após rezar de joelhos seguindo o que lera na bíblia, Robinson descansa alguns dias e melhora gradativamente, incrédulo da força da palavra de Deus, a qual começa a pôr fé e, ao longo dos dias, pedir que lhe dê arrependimento, dizendo que sua vida solitária já não o afligia mais, e que somente pedia a deus que libertasse a sua alma do peso dos remorsos. E, assim, seus pensamentos apenas se dirigiam a Deus.
Com o tempo, Robinson foi conhecendo melhor sua ilha, e dessa forma, também como usufruir desta. Passados já 3 anos, enquanto andava pela ilha pode avistar terra situada em frente a sua, fato que o animou e trouxe em sua mente mil e uma ideias de como construir um barco para se ver livre de sua miserável situação. Porém apesar de conseguir construir um barco, com o qual tenta dar a volta em sua ilha para conhecê-la, o repuxo do mar o amedronta e o faz desistir, fazendo-o retornar à sua parte da ilha, pela qual, naquele momento, sentiu saudades.
“ Como é fácil o homem, dizia comigo mesmo, trocar a sua situação, triste que seja, por outra ainda mais deplorável! A ilha parecia-me, naquele transe, como o sítio mais delicioso do mundo. Toda a felicidade que eu anelava era regressar. “
Em sua terra, Robinson continuou a viver. Domesticou animais e aos poucos foi aperfeiçoando sua morada e aprendendo truques para melhor trabalhar e viver nela.
“ Eu era o rei e o senhor de toda a ilha; senhor absoluto de todos os meus vassalos, tinha sobre eles direito de vida e de morte. ”
Uma das surpresas que Robinson encontra a seguir é uma pegada humana perto da praia, a qual o assusta e o faz pensar que antes estava com medo de sua solidão na ilha, agora tinha medo da companhia de outro ser da sua espécie. Porém, com o passar do tempo, sem encontrar ninguém, pensou que a pegada devia ser sua, e que ele estava o tempo todo com medo de sua própria sombra. E foi assim, até quinze anos, com quais não descobriu na ilha a sombra de outra criatura humana.
Depois, outra surpresa com que Robinson se depara em uma parte mais distante da ilha, são restos de rituais antropofágicos dos selvagens, que o enchem de terror. Dessa forma, Robinson percebe que estes devem vir à ilha apenas para “comer” seus prisioneiros e depois, voltam para sua terra. Daí em diante, ele passa a pensar em meios de se esconder e de, talvez, conseguir matar os selvagens em seu ato horrendo. Porém, Robinson nada faz senão sonhar com um prisioneiro que fugiria das mãos dos selvagens e iria em sua direção, a procura de socorro. Incrível a providência. Seu sonho se realiza.
Na terceira vez que vê os selvagens, Robinson observa que um dos prisioneiros foge para a floresta e que este se encontra seguido por apenas 3 outros selvagens. Robinson ajuda-o, então, a despistar e a matar seus inimigos, cuidando do prisioneiro. Robinson o faz de escravo e nomeia-o de Sexta-Feira. Este se torna extremamente fiel e agradecido à Robinson, do qual se torna grande amigo.
Robinson passa a ensinar tudo sobre a ilha à Sexta-feira e tenta fazer com que este abandone seus hábitos antropofágicos. Após algum tempo, estes planejam modos de voltar à terra natal do Índio Sexta-feira, o qual se anima muito em pensar em voltar para casa, porém afirma que só irá na companhia de Robinson, seu salvador, e que os índios de sua tribo não o fariam mal. Porém estes mal começaram a construir um barco quando se deparam com muitas surpresas. Outra vez os selvagens vão a ilha, e nossos dois amigos pensam em mil formas de salvar os prisioneiros para que estes se juntassem a eles. Os planos são efetuados com êxito. Matam a tiros a maioria dos selvagens com exceção de alguns que fogem de volta para o mar. Após salvar um prisioneiro espanhol que estava com eles, devido a um naufrágio perto da terra dos selvagens, ao entrarem em um dos barcos do selvagem descobrem outro prisioneiro que, para a surpresa de Sexta-feira, era seu pai.
“ Alguns minutos depois de Sexta-feira o ter olhado bem e tê-lo ouvido falar, era de arrancar lágrimas aos olhos do homem mais insensível, vê-lo beijar e abraças o selvagem “
Após muito conversar com o espanhol e o pai de sexta feira, eles traçam um plano de que estes novos visitantes iriam com um barco de volta para sua terra, a fim de chamar o restante dos espanhóis que tinham naufragado na terra dos selvagens para que estes pudessem ir a ilha de Robinson e lá, ajudar a construir um navio com o qual todos, poderiam se salvar juntos. Porém nunca saberemos o que aconteceu com o pai de sexta feira, ou com o espanhol, pois na ilha ocorre um grande episódio antes que estes pudessem voltar. Passados oito dias da saída dos novos visitantes, Robinson avista um navio inglês, de sua pátria, a se aproximar de “sua terra”. Não sabendo se ficava feliz ou estranhava o fato dos homens estarem naquela região, pois sabia que eles não mantinham negócios por ali, Robinson esperou para ver o que acontecia. Como os selvagens, os ingleses desceram a ilha com prisioneiros que também eram ingleses, e com o intuito de ajudá-los e a entender o que estava ocorrendo, Robinson e sexta-feira resolvem se aproximar quando estes estavam longe dos outros marinheiros, os quais ficam muito agradecidos:
“ É preciso que nos tenha sido enviado pelo céu “ ... “ porque as nossas desgraças estão acima de todo o socorro humano” ... “ falo a um homem ou a um anjo? ”
E, assim, um deles explica que fora comandante do navio, e que seus marinheiros haviam se voltado contra ele, deixando-o, junto com o contramestre e um passageiro, naquela ilha para morrerem. Logo, Robinson se dispõe a ajudá-los, porém com duas condições:
“ Enquanto estiverem nessa ilha comigo, renunciaram a toda a espécie de autoridade, e se eu lhes puser as armas nas mãos restituir-mas-ao logo que eu às pedir: obedeceram completamente às minhas ordens, sem nunca pensar em me causar prejuízo. “...“ Se conseguirmos retomar o navio, levar-me-ão à Inglaterra com o meu escravo, sem me pedir nada pela passagem.
Então, traçando vários planos, eles conseguem, assim, matar alguns homens, fazer com que alguns se rendam para fazerem parte da nova tripulação, e outros, os quais consideravam seus “ prisioneiros”, foram deixados na ilha. Para Robinson, foi triste deixar sua ilha, na qual havia vivido por 28 anos, 2 meses e 19 dias, segundo seus cálculos, levando consigo apenas um barrete de pele de cabra, o seu guarda-sol e seu papagaio. Sua viagem foi feliz, e chegou a Inglaterra sã e salvo, onde continuou a viver, com o dinheiro das terras que outrora havia tido no Brasil.
ROBINSON E O RELATIVISMO CULTURAL
Fica mais que claro na obra a falta de respeito existente por parte de Robinson com os costumes e com os hábitos dos indígenas, pois estes diferiam dos seus. Claro, naquela época, tais atitudes eram comuns a quem não conhecia, principalmente, a existência de teorias relativistas, as quais expressam que diferentes culturas têm códigos morais diferentes, e o que é considerado correto em uma, pode ser completamente detestável em outra. As ideias universais na ética, seriam um mito. Tudo o que existe, são costumes sociais diferentes.
Tal é o espanto de Robinson quando encontra resíduos de corpo humano que indicavam atos antropofágicos realizados pelos índios. Pensa, a partir daquele momento, em formas de matar todos eles, e só não o faz porque estaria sozinho lutando contra um grande número de selvagens.
Notamos, ainda, que Robinson nos surpreende ao demonstrar ter conhecimento de que, talvez, tais pensamentos seriam injustos com esses povos, mas logo depois abandona esse pensamento.
“ Que autoridade, disse comigo mesmo, que vocação tenho para me fazer juiz de carrasco desses miseráveis selvagens? Que direito tenho de vingar no seu sangue o sangue que eles derramaram? Estes homens nunca me fizeram mal, pessoalmente, e o que eu quero empreender não poderia ser desculpado senão pela necessidade em que eu viesse achar-me de me defender eu próprio, contra os seus ataques. “
O único ato em respeito a um selvagem que de fato Robinson faz, não é senão porque precisava muito de alguém para ajudá-lo a, algum dia, sair daquela ilha. Logo, é com a mesma facilidade com que ele mata muitos selvagens, que também salva Sexta-feira e, em nenhum momento do livro, mostra-se arrependido por isso. Além do mais, Robinson faz do índio seu escravo e abusa da ingenuidade deste com suas armas de fogo e outras ferramentas que havia, fazendo-o acreditar que à Robinson devia servir até o fim de seus dias. E, não obstante, Robinson ainda tenta fazer com que Sexta-feira abandone seus rituais e seus costumes antropofágicos para viver com ele na ilha.
“ Não me descuidava, entre estas diferentes conversações, de assentar na sua alma as bases da religião cristã ”... “consegui instruí-lo no conhecimento do verdadeiro Deus”.
A OBRA
Robinson Crusoé, entretanto, é um livro muito envolvente, pois faz com que os leitores reflitam sobre tudo que ocorre na vida de Robinson e, principalmente, sobre a condição à qual ele fica exposto em sua “ilha deserta”. Com uma clareza extraordinária, o autor nos conta com precisão muitos dos processos feitos por Robinson para que pudesse sobreviver e fazer com que sua estadia fosse cada dia mais tolerável. Fato que acrescenta ao romance a ideia do escritor criar uma realidade verdadeira e existente, envolvendo o leitor, o qual se interessa cada vez mais por tudo que se sucede a Robinson. Defoe expressa muito dos interesses da sociedade vigente no período da obra, na qual cita, muitas vezes, o desejo por mercadorias, escravos, terras, e por capital, que dominava os homens daquela época.