A Morte em Veneza


A Morte em Veneza
de Thomas Mann
*

    Nascido no Império Alemão em 1875, Thomas Mann é um dos nomes de maior destaque na literatura do século XX, tendo conquistado com sua vasta obra literária - que conta com romances, ensaios, novelas, contos e escritos políticos - o Prêmio Nobel de Literatura de 1929. Morreu em 1955, aos oitenta anos, amplamente reconhecido e autor de uma sólida obra literária (tanto no campo da criação como também no da teoria).
Considerado um homem de seu tempo, Mann foi expatriado da Alemanha nazista em 1933, o que lhe impulsionou a tecer comentários e escritos de tom mais político a partir de então. Durante a Segunda Guerra Mundial, morando nos Estados Unidos, criticou ativa e duramente as tropas nazistas e Adolf Hitler.
Sua obra é de caráter filosófico e analítico, sendo bastante recorrente nela a caracterização de seu “tipo artista”, o personagem de cabelos e olhos negros, deslocado do todo (da sociedade de “tipos alemães”, de cabelos amarelos, olhos claros e sem grandes angústias relativas ao próprio ser), e a profunda análise deste e de seus propósitos, questões e angústias existenciais, como é o caso de Gustav von Aschenbach, protagonista de A Morte em Veneza e de Tonio Kröger, da novela homônima. O autor bebe amplamente da mitologia grega antiga e dos filósofos alemães do século XIX, como Nietzsche e Schopenhauer, o que dá a sua obra um aspecto empolado e esteticamente elevado, além da profundidade filosófica característica de seus textos.
A Morte em Veneza trata do declínio de Gustav von Aschenbach, um consagrado escritor alemão de hábitos metódicos, veterano aspirante à perfeição, após deparar-se, em uma viagem a Veneza, com um menino polonês de beleza ideal, por quem se apaixona perdidamente.
Aschenbach se encontrava em um período de profunda angústia devido a um bloqueio criativo, o que o impulsionou, após deparar-se, diante de uma capela em Munique, cidade onde vivia, com um homem de figura cadavérica - a imagem da Morte - a dar-se a liberdade de um período de viagem, de pausa em seu metódico processo de escrita. Viaja para Pula, mas lá não encontra o ambiente que procurava. Decide, então, ir a Veneza. O texto traz ao leitor, na ida e estadia de Aschenbach a Veneza, uma série de símbolos que remetem à tradição mitológica e filosófica, tais como os personagens não-primários com os quais o angustiado escritor se depara - a imagem de Caronte, o barqueiro do Hades, no homem que recebe o pagamento pelo transporte até Veneza, e depois novamente no gondoleiro que o leva ao Lido, onde se hospedaria no Hotel Excelsior -; ou a personificação do ideal de beleza em Tadzio, o adolescente polaco de quinze anos por quem Aschenbach se sente fatalmente atraído desde os primeiros contatos visuais. A paixão pelo garoto o leva a abandonar gradativamente a sua mais preciosa característica, a qual possibilitava a fecundidade de sua profissão: deixa de lado o trabalhar árduo e sua própria constituição apolínea, a busca pela perfeição de sua própria pessoa e obra - o ideal do artista -, e passa a enaltecê-la fora de si, na pessoa de Tadzio. Desta maneira acaba por abandonar completamente a si mesmo, num auge da deterioração, e acaba depravado e lascivo, distante de quem foi antes da mortal paixão. A narrativa acaba sem Aschenbach ter trocado sequer uma palavra com Tadzio.

Assim se constrói o texto; em uma aparente superficialidade do enredo se entrecruzam símbolos e análises assaz profundas, que fazem da novelle mais famosa de Thomas Mann um belo e consagrado clássico da literatura. A obra exige do leitor, entretanto, que esteja atento e preparado para que possa absorver as várias camadas que possibilitam a leitura.

Postagens mais visitadas