As Flores do Mal



As Flores do Mal
de Charles Baudelaire
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   O livro de 1857 é um marco importante da poesia moderna, e tem como particularidade a rigidez da escrita combinada com um conteúdo reflexivo e provocativo. Seus versos alexandrinos e decassílabos se diferem de tudo que já teria sido feito naquela época por expressar uma enorme e importante compreensão da modernidade através de metáforas que prosam em forma clássica. A obra é dividida em cinco capítulos, cujos temas se cruzam no conjunto da ideia de obra: Spleen e o ideal (tédio e ideal)e Quadros Parisenses; O Vinho; As Flores do Mal; A Revolta; A Morte. 
   É na contradição da forma clássica, cultuada por si mesma na época, com o conteúdo de jogar com ideias contrárias para complementarem-se entre si, que Baudelaire marca seu nome na história da literatura. Olhando para onde a poesia jamais olhara até então, o autor expõe um mundo tedioso e melancólico, de uma melancólica passagem do tempo, onde a saída não está além do vinho e das artes.
   Contemplando figuras da cidade e da natureza, o homem invade a natureza com seus vícios mundanos, e imprime a ela as degradações de seus impérios corrompidos, embora não possa podar-lhe a capacidade de vida. Das figuras da natureza, exaltadas na poesia até então pela sua perfeição, ele faz também exalar podridão, como expressa o próprio título "As flores do mal". 
   Dessa mesma natureza, imagens perturbadoras, como "Uma Carniça", onde mais uma vez o poeta engana o leitor, abrindo os versos com leveza para expôr a mais podre decomposição da natureza. E numa genial mistura entre a descrição da decomposição da carne, ele decompõe também as pessoas, o amor. A decomposição como ideia de morte, de mortes terríveis e repugnantes também é tema recorrente no livro. 
   O tédio, o tenebroso tédio dos dias cinzas e frios que não completam a alma humana. Este também é um dos temas para os quais Baudelaire é dos primeiros poetas a se dedicar. "O tédio, taciturno, exílio da vontade, / Assume as proporções da própria eternidade." A vida fosca, sem brilho, em um mundo sem cor onde nada mais corre nas veias dos vivos. Enquanto a esperança chora, é angústia que se amplia e domina as cabeças, presas nas cadeias dos dias. O tédio de Baudelaire é uma verdadeira prisão, um labirinto infinito, do qual somente o vinho e a arte nos pode libertar. 
   A angústia do tédio é como uma expressão da passagem do tempo, que decompõe a vida e nos aproxima cada vez mais da morte. A passagem do tempo e o quão passageiras as emoções, as paixões, as pessoas, que rapidamente se vão. 
   Baudelaire consegue captar com destreza conflitos e contradições da nascente modernidade com os valores ainda presentes de um momento anterior, e o vazio, o sabor do nada, que esses choques produziriam. Eterniza-se também por conseguir expressar uma angústia que nem de longe pertence somente ao momento em que viveu, tendo a morte como um dos temas mais importantes, que encadeia-se com todos os outros. A decomposição da natureza e das pessoas como parte da passagem do tempo e a morte como resultado final disso. 

   Sobre o autor: Charles Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821. Além de poeta, precursor do simbolismo e da poesia moderna, foi tradutor e crítico de arte, influenciando muito as artes plásticas do século XIX. Morreu aos 46 anos, em 1867, sem conhecer o auge de sua própria fama.
   A primeira edição do livro foi censurada, com acusação de ultrajar a moral pública. Os exemplares do livro foram apreendidos e o autor e a editora tiveram que pagar multa. Provocador como seus versos, Baudelaire escreveu novos poemas, segundo ele, mais belos do que aqueles censurados, para poder publicar novamente o livro. 
   Viveu uma vida boêmia e desregrada, sobretudo quando teve acesso à herança de seu pai, que lhe permitiu desfrutar livremente de todo o tipo de prazer mundano no que diz respeito à drogas, álcool e boemia. 

"Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta.

Espírito alquebrado! Ao velho salteador
Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
Prazer, dá trégua a um coração desfeito em dor!

Perdeu a doce primavera o seu odor!

O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,
Como a neve que um corpo enrija de torpor;
Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,
E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.

Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?"

O Gosto do Nada, Baudelaire

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