Memórias do Subsolo
Memórias do Subsolo
de Fiódor Dostoiévski
*
A novela Memórias do Subsolo foi escrita em 1864, nove anos após Fiódor Dostoiévski ter sido libertado de seu exílio na Sibéria, e é considerada a obra que inicia a segunda fase em sua carreira literária, a qual deu início, segundo o crítico Joseph Frank, nos chamados “anos miraculosos’’, em que foi antecipada a maturidade do escritor russo e foram produzidos nos anos seguintes as obras: Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869), Os Demônios (1872) e, por fim, encontrando uma síntese em sua obra prima, Os Irmãos Karamázov (1881). Em Memórias, o narrador e protagonista da novela é um funcionário público aposentado que não revela seu nome em nenhum momento, sendo apenas chamado popularmente como o homem do subsolo; tal fato pode, por um lado, ocorrer em conta dele não querer ser lido por ninguém, apenas desabafar, mas, por outro lado, ter sido a opção de Dostoiévski em querer caracterizar um protagonista mais “universal’’.
O livro pode ser dividido em duas partes: primeiro, O Subsolo, na qual o narrador, através de um solilóquio, expressa toda sua amargura e inércia em relação à sociedade russa e ocidental, em especial contra os chamados “homens de ação’’, ou seja, pessoas que, sem perceberem, vivem como escravas e o objetivo único de suas vidas é cumprir ordens. Além disso, a autointitulada “consciência hipertrofiada” do protagonista é um dos motivos dele viver numa condição de perene perturbação. Na segunda parte da obra, A propósito da neve molhada, a novela adquire um caráter mais romanesco e, dessa vez, a trama se desenvolve com momentos de relação entre o homem do subsolo com outras pessoas, além, é claro, de recorrentes momentos de fluxo de consciência. São narrados três episódios ocorridos vinte anos antes, quando o homem do subsolo tinha vinte e poucos anos: primeiro, sua angústia ao tentar se “chocar” contra um oficial de cargo superior ao seu numa movimentada avenida; depois, um encontro e posteriormente um jantar com seus antigos colegas de escola e, por fim, sua relação, ora cheia de desprezo, ora com momentos de consideração, por uma prostituta chamada Liza.
As obras de Dostoiévski influenciaram profundamente diversos pensadores que vieram a ler seus livros, em especial o pai da psicanálise: Sigmund Freud. Memórias do Subsolo é um clássico da literatura ocidental e um livro fundamental para aqueles que querem adentrar na densa e conflituoso síntese psicológica dos romances mais aclamados de um dos escritores russos mais importantes da literatura ocidental. Além disso, devido à tamanha importância de Memórias para o pensamento de pensadores que leram Dostoiévski, pode-se ouvir ressoar as perturbações do homem do subsolo em diversos meios artísticos modernos e contemporâneos, de romancistas e filósofos do século XX como James Joyce e Herman Hesse, Sartre e Camus; assim como cineastas do século XX como Godard (em La Chinoise) e Martin Scorcese (em Taxi Driver), e do século XXI como Woody Allen (em Homem Irracional) e tantos, tantos outros.