Virgínia Woolf
Virgínia Woolf
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A literatura reflexiva, psicológica, subjetiva e profunda é uma grande marca de Virgínia Woolf. A invasão de pensamentos e devaneios pelos qual passeiam suas personagens ao viver acontecimentos simples e aparentemente corriqueiros é onde se desenvolve toda a genialidade de Woolf. É nessas digressões e nos devaneios, a partir da contemplação do cotidiano, que ela registra com profundidade seu nome na literatura ocidental como uma das maiores escritoras do século XX. Virginia nasceu em 1882, em Londres. Perturbada pela depressão, se suicidou em Lewes no ano de 1941, enchendo seus bolsos de pedras para se afogar no Rio Ouse. Foi uma das mais importantes escritoras da modernidade. Sofria do que hoje é conhecido como bipolaridade, e tem suas obras marcadas pelos tormentos de incessantes reflexões, que tornam cada passo no mundo uma explosão de sentimentos e devaneios.
O conto "A mulher no espelho" ou "A dama no espelho", a depender da tradução, mergulha nas contradições e angústias de Isabela Tyson, uma mulher que, embora incomum, poderia estar satisfeita com sua própria vida, não fossem seus demônios e seus segredos a lhe atormentar "(…) ela era solteira; rica; comprara a casa e acumulara pelas próprias mãos — muitas vezes nos cantos mais ignotos do mundo e correndo grande risco de picadas venenosas e doenças orientais — os tapetes, as cadeiras, os armários que agora viviam sua vida noturna perante o olhar de qualquer um." O conto, publicado em 1929, narra a necessidade de submergir na própria alma e nas próprias dores e segredos a partir de representações como gavetas trancadas e as correspondências não lidas. Lentamente a personagem abre suas cartas para depois chaveá-las novamente nas profundezas dos armários. A reflexão inicial e a conclusão sustentam uma mesma ideia: "As pessoas não deviam dependurar espelhos em suas salas." Sendo os espelhos esses objetos malditos que permitem ver-nos de uma perspectiva externa, como se saíssemos de nossos próprios corpos e pudéssemos enxergar-nos para além de nosso próprio ponto de visão. E neste devaneio a personagem submerge em suas próprias contradições, explorando sua subjetividade, fugindo dos reflexos de suas dores e seus amores mal curados.
Também mergulhando em devaneios e digressões "Objetos sólidos", publicado pela primeira vez em 1920, contrapõe a concretude dos objetos com a rotina, os padrões, os projetos de vida. "Que se dane a política" é seguramente a frase mais marcante do conto, que demarca a ruptura do personagem Jonh com sua vida política, profissional e inclusive com suas relações pessoais. A cuidadosa descrição do momento em que o personagem encontra um vidro esverdeado na beira da praia, enquanto repousa com seu amigo Charles, demarca que é aquele o momento central da história. O decorrente processo de tornar-se obcecado por fragmentos de objetos na mesma medida em que abdica de todo o restante, e que todo este restante esvazia-se de sentido, traz uma dura e melancólica reflexão ao leitor . Aquele pedaço de vidro foi como uma válvula de escape de uma vida que não se sustentava mais, como se o personagem projetasse ali e em todos os outros fragmentos de objetos, aos quais dedicou todas suas energias a buscar a partir daquilo, uma razão para romper com todo o restante. O único amigo que lhe resta afinal é o próprio Charles. Ao final do conto, mesmo a relação dos dois se desfaz frente à incapacidade dele de compreender o abandono de Jonh de todo o resto.
Mrs. Dalloway em Bond Street é um conto de 1923 em que Woolf narra os pensamentos e reflexões de Clarissa Dalloway enquanto circula por Londres. No ato, aparentemente simples, de comprar luvas, a autora nos apresenta uma de suas personagens mais interessantes. Dalloway, "uma mulher encantadora, amaneirada, ansiosa, curiosamente grisalha se se levam em conta as faces rosadas" tem opiniões e reflexões sobre tudo e todos por quais cruza nas ruas de Londres. Mais uma vez mostra-se a impressionante capacidade da escritora de submergir nos acontecimentos simples, de explorar as casualidades para uma apreciação mais profunda do mundo. Também a minuciosa descrição da paisagem londrina narrada pelos olhos e devaneios de Dalloway, analisando as pessoas e revisitando o passado é parte do que conduz a narrativa. Rapidamente a personagem abre reflexões sobre diversos temas ao longo do conto, o que fez com que Virginia não se contentasse com uma história tão curta e transformasse o conto no primeiro capítulo de um de seus romances. Entre análises psicológicas e dilemas da personagem que dá título ao conto e ao romance, a autora referencia fluidamente obras de outros escritores, como Shakespeare.